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26 de novembro de 2011

Férias - Mais uma de Veríssimo

             - Praia! - Gritou a filha.
             - Serra! - Gritou o filho.
             - Quintal - Sugeriu o pai, pensando na crise.
             A mulher tinha um sonho: fazer um cruzeiro num transatlântico de luxo. Só uma vez na vida. Noites de luar no Caribe. Drinques coloridos à beira da piscina. Lugares exóticos com nomes românticos.
             - Galápagos...
             - Barbados...
             - Falidos...
             - Fal... Como, Falidos?
             - É o que nós ficaríamos depois de uma viagem destas. Você sabe quanto custa?
             - Você só pensa em dinheiro.
             - Dinheiro, não. Cruzeiros.
             - Praia, pai!
             - Serra!
             - Praia!
             Chegaram a um acordo. Praia e serra. Uma semana de cada uma. O cruzeiro no Caribe aguardaria a improvável circunstância do papai morrer e a mamãe casar com o Chiquinho Scarpa. Tinham ouvido falar de um hotel novo numa praia ainda não desenvolvida. Preços promocionais. E a distância, segundo o pai, que calculou as probabilidades de irem e voltarem de carro sem os combustíveis aumentarem no meio do caminho era razoável. Para a praia, portanto. Uma semana!


             - Esta tudo no carro?
             - Esta, Vilson, entra.
             - Pomada contra queimadura?
             - Está.
             - Repelente contra inseto?
             - Está.
             - Quinino? Tabletes de sal? Ataduras? Rádio, para mantermos contato com a civilização?
             - Vamos lá, pai!
             - Antibióticos? Lança-chamas, contra um possível ataque de formigas gigantes?
             - Esta tudo no carro, Vilson. Deixa de bobagem e entra
             - Arranca. Não está tudo no carro.
             Faltava a Agatha Christie. O pai voltou correndo para buscar a Agatha Christie. Cinco livros. Pelos seus cálculos, eles o manteriam longe do sol, da areia e da água fria por toda a semana.
             - Você vai para a praia nua?
             - Eu não estou nua, pai. Estou de biquíni.
             - Vou ter que aceitar sua palavra...

Crônica de Luís Fernando Veríssimo em quadrinhos
Diálogo de outra crônica de Veríssimo


                  - Garçom, sal.
                  - Ahn?
                  - Sal. Aquela coisa branca que parece açúcar.
                 – Ah.
                  - Não é possível. Ele sabe o que é sal.
                  - Calma, Vilson. O hotel é novo. Ouvi dizer que eles estão aproveitando gente do local.
                  - Mas o sal já deve ter chegado aqui. Já ter antena parabólica, e sal refinado e bem mais antigo.
                  - Ele não ouviu o que você disse Vilson. Olha, aí vem ele.

                  - Ah! Aí está. Obrigado.
                  - Obrigado, moço
                  - Eu sabia...
                  - O quê?
                  - Ele trouxe açúcar.


                  - Sabe que você, desse jeito, está muito, mas muito apetitosa?
                  - Ai!
                  - Que foi?
                  - Não me toca aí.
                  - Por quê?
                  - Queimadura. É por isso que eu vou dormir sem roupa.
                  - Eu não falei? Você devia fazer como eu. Eu nunca me queimo.
                  - Claro que não se queima. Passa o dia inteiro dentro do hotel lendo a Agatha Christie
                  - Quando o tal general me deixa. O velho chato. Só fala em doença. Sabe que eu já sei mais sobre a vesícula dele do que sobre a minha? E isso que eu convivo com a minha há anos. Vem cá, vem.
                  - Ai! Ai também não pode tocar. Aqui. Aqui pode.
                  - Aí não me interessa.


                  - Meu filho, eu quero que você pense numa coisa. Você sabe o que pode acontecer se você continuar indo tão longe no mar? Sabe?
                  - Sei, pai. Posso morrer afogado.
                  - Não é só isso, meu filho. Se você morrer afogado nós vamos ter que interromper o veraneio. E o hotel está pago até o fim da semana!


                  - Eu pedi peixe.
                  - O senhor pediu peixe.
                  - Exato. E isto não é peixe.
                  - É, sim senhor.
                  - Não, meu amigo. Isto é carne.
                  - É peixe.
                  - É carne.
                  - Pai...
                  - O quê?
                  - Pode ser peixe-boi.
                  - Vilson! Você levantou a mão pro menino!
                  - Desculpe. É que eu dormi mal esta noite. Os mosquitos. E sonhei com a vesícula do general.
                  -Desculpe meu filho.
                  - O senhor quer trocar de prato?
                  - Não, não. Isto está ótimo. Bife com molho de camarão. A gente deve experimentar tudo na vida. Traga o sal, por favor.
                 - Ahn?
                 - Esquece.


                 - Veja que coisa fascinante é o ciclo da vida. Os mosquitos nos comem, as lagartixas comem os mosquitos, e tenho certeza que cedo ou tarde servirão essa lagartixa no restaurante do hotel. Sem sal. o ciclo se completa. A vida segue o seu curso. É bonito isso. Chega pra cá...
                 - Não. Eu ainda estou queimada.
                 - Então você, Agatha. Venha você. Assim. Oh, sim. Deixa eu abrir as suas páginas, deixa eu acariciar, lentamente, a sua lombada. Mmmm...
                 - Vilson...
                 - O quê?
                 - É você fazendo cócegas no meu pé?
                 - Eu não sonharia em tocar em você, querida.
                 - AKH! É a lagartixa!


                 - Sabe, general, eu sempre achei que, se houver Inferno, ele é um hotel de praia num dia de chuva.
                  - Como?
                  - O inferno. Deve ser um hotel de praia em dia de chuva.
                  - Isso é porque você não sofre da vesícula.


                  - Eu ainda mato o general. Herodes foi um grande injustiçado da história. Devia-se fazer uma campanha para reabilitá-lo. Limpar o seu nome.
                  - Vilson, tenha paciência. Com essa chuva as crianças têm que ficar dentro do hotel. Onde é que você vai?
                  - Me lembrei que estou aqui há cinco dias e ainda não fui à praia.
                  - Mas está chovendo!
                  - Certo. Se começar a parar eu volto correndo.


                  - Bingo!
                  - Papai! Você completou o cartão!
                  - Grande pai!
                 - Qualquer jogo que requeira capacidade intelectual é comigo mesmo. Desafio qualquer um neste hotel para um burro-em-pé até a morte.
                
                 - Querido...
                 - Hum?
                 - Larga a Agatha.
                 - Você não está mais queimada?
                 - Estou, mas não me importo.
                 - Já vi tudo. É porque eu ganhei no bingo. Há algo num vencedor que atrai as mulheres. Certo magnetismo ani...
                - Vilson...
                - O quê?
                - Cala a boca.


                - Está tudo no carro?
                - Está, Vilson. Entra.
                - A prancha? As conchas? Tudo?
                - Tudo, Vilson.
                - A lagartixa?
                - Vamos embora, pai!
                - Ah, a serra! Vejam que beleza. Vocês acordarão cedo todas as manhãs e farão grandes caminhadas e depois me contarão como foi se conseguirem me acordar. Encheremos os pulmões de ar puro e ainda levaremos um pouco para casa, dentro de isopores. Este hotel me parece bom.
                - Por que você escolheu logo esse?
                - Gostei do nome. "Falso Bávaro", pelo menos parece honesto.


               - Vamos passear no mato. Vamos passear no mato!
               - Pensei que você fosse passar os dias no hotel, lendo.
               - Vocês não vão acreditar.
               - O quê?
               - O general também está aqui! Vamos passear no mato.

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