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15 de outubro de 2012

Turistas em Sertãozinho: lenda urbana

       O texto abaixo é de minha aluna Josiane Cristina Alves, do 3º ano do Ensino Médio. É um artigo de opinião sobre o sonho (imposível) dos governandtes de Sertãozinho em transformá-la em cidade turística. Foi produzido para a 3ª Olimpíada de Língua Portuguesa, que acontece de 2 em 2 anos e já é semifinalista. No final de novembro iremos para Belo Horizonte onde conheceremos os alunos finalistas que em dezembro participam  do encerramento da OLP em Brasília.
       Não conheço BH, mais uma vez a OLP me proporcionará um novo lugar para escrever no blog. Em 2010, acompanhei uma aluna classificada na categoria crônica à Curitiba e depois à Brasília onde o texto ficou coma medalha de prata. Que venham outras Olimpíadas.


Turistas em Sertãozinho: lenda urbana

Sertãozinho é a capital mundial do setor sucroalcooleiro. O que a torna grande, contradizendo o nome diminutivo, são 7 usinas e destilarias de açúcar e etanol, além de 550 indústrias ligadas ao agronegócio da cana-de-açúcar. Feiras como Fenasucro&Agrocana e  ForInd são referências em tecnologia e atraem visitantes de diversos países. Consequentemente desenvolveu-se o ‘turismo de negócios’ que lota hotéis durante a semana com empresários e profissionais da área.
Entretanto, nos últimos anos estão sendo feitos investimentos abundantes em ‘turismo de lazer’. Segundo Marcos Favaretto, Diretor de Turismo e Cultura de Sertãozinho, “a cidade precisa investir para que os hotéis fiquem lotados também aos finais de semana”. Porém, para que uma cidade sem atrativos naturais se torne turística é preciso fabricar as atrações. Somados, são mais de 15 milhões investidos em ‘obras turísticas’ como o pórtico na entrada da cidade (350 mil), Cristo Redentor (4 milhões), praia artificial (8 milhões) e Trem da Cana (3 milhões). Esse tipo de turismo traz benefícios para a população?
Do meu ponto de vista, o bem estar dos sertanezinos foi colocado em segundo plano em favor da estética. As obras inacabadas e consideradas desnecessárias têm desagradado aos moradores.
A função do pórtico recém-inaugurado, por exemplo, não ficou muito clara. O prefeito diz que “o objetivo da obra é deixar a cidade mais bonita, acolhedora e segura para moradores e turistas”. Não sabemos a quais turistas ele se refere; quanto à segurança, o comentarista do Jornal da Clube, Antônio Vicente Golfeto, analisa: “...é como uma casa com quatro portas que, por questão de segurança, se fecha uma; como se nas outras não fosse possível entrar ninguém. Uma das entradas com as câmeras irá captar informações, perfeito! Mas precisa ser nas quatro entradas de Sertãozinho, fora isso fica meio manco.”
Estudos para a instalação do Trem da Cana, iniciaram-se em 2009 e o primeiro passeio turístico até o vizinho município de Pontal está previsto ainda para 2012. Ao que tudo indica, pelos trilhos restaurados passarão trens de carga. Isso preocupa àqueles que residem nas proximidades da linha pelos inconvenientes que podem ocorrer, como o fechamento da rua dificuldando a ligação do bairro Jardim Alvorada com o centro da cidade.preocupação às pessoas que residem nas proximidades da linha
Desde 2008, o Cristo Redentor cria expectativas por ser maior que o Cristo carioca. A notícia foi publicada até no The Sidney Morning Herald, da Austrália. Porém, há 4 anos a estátua aguarda ao lado do pedestal inacabado. O atraso desvia a atenção de uma polêmica que permeou a construção do Cristo original: o desrespeito ao art. 19º da Constituição Federal, que indica o desejável distanciamento entre governo e religião. A ostentação desse monumento fere nossa lei maior, pois não existe neutralidade alguma quando se utiliza impostos pagos por pessoas de diversas religiões para a construção de um símbolo católico.
Temos ao menos uma obra pronta para receber turistas, a praia artificial. Com piscina, churrasqueiras, quadras esportivas... e o melhor: tudo grátis. Em finais de semana ensolarados, o parque recebe até 7 mil visitantes, sendo 70% de cidades vizinhas. Ou seja, é mantido com dinheiro dos sertanezinos e bem pouco frequentado por eles.
Com IDH de 0,833, não há como dizer que saúde e educação vão mal em Sertãozinho. Contudo, se a sobra orçamentária permite extravagâncias, que haja consentimento da população para realizá-las. Com certeza, a preferência seria pela construção de UBSs, atendimento médico 24h, maior rapidez nos agendamentos de consultas e valorização dos profissionais da saúde. Parte do dinheiro vem do Ministério do Turismo, o que só agrava o absurdo de se investir em uma cidade sem potencial turístico quando as obras para a Copa do Mundo de 2014 estão atrasadas em todo o país.
Assim, tais obras turísticas são desrespeitosas com a população e inúteis já que ninguém trocará a vista de uma das Sete Maravilhas do Mundo para avistar os canaviais. É válido que se invista na infraestrutura para bem receber quem nos visita por nosso forte potencial econômico e produtivo. E nos finais de semana que divirtam-se com suas famílias em Ipanema ou Copacabana.

Um comentário:

  1. Hehe... muito bom! Pensamento crítico, linguagem incisiva.
    Que ótimo que irão a BH! Faz uns 5 anos que lá não vou e sinto saudades.
    Se houver oportunidade, não deixe sem visita o Mercado Central e (no domingo) a Feira na Afonso Pena - a-do-ro!

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