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6 de julho de 2013

Coxinhas douradas de Bueno de Andrada (crônica)

      Esta é a crônica de Ignácio de Loyola Brandão que fez com que as coxinhas de Bueno de Andrada ficassem famosas no Brasil inteiro. Texto tão saboroso quanto as próprias coxinhas.

Coxinhas Douradas de Bueno de Andrada

           Imagens de uma manhã de domingo. Nas proximidades do cemitério dos Britos, em Araraquara, um homem cavalga, garbosamente, um tordilho. Atrás dele, veloz, vem um menino de bicicleta. O menino ri e segura na cauda do cavalo que galopa, indiferente, puxando seu reboque. Logo depois, estamos na estrada vicinal que conduz a Bueno de Andrada (é Andrada mesmo). Os trilhos da antiga Estrada de Ferro Araraquara (EFA, depois Fepasa, hoje Ferroban, amanhã ninguém sabe) passam por um aterro. De pé, junto aos trilhos, a morena de cabelos longos, blusa lilás brilhando ao sol, penteia os cabelos. Sorri olhando o céu, talvez esteja feliz. A escova desce lenta e sensual pelos cabelos. Abaixo, um carro com as portas abertas. Por que ela veio pentear os cabelos em cima do aterro? Quem é? Lerá esta crônica, saberá que é ela? Doces mistérios dominicais. 

      A estradinha que conduz a Bueno atravessa uma região de um verde intenso, variado. Pastagens em tom pastel, capões de mato verde escuro, pequenos canaviais, árvores isoladas, uma colina. Penso na mania que temos de dizer: "Ah, preciso ir à Toscana, a Toscana é linda." Lindíssima, concordo. No entanto, aquele trecho que conduz a Bueno e Silvânia não fica devendo. Foram 15 minutos de deslumbramento. O tempo parado. Aqueles momentos que penetram e trazem paz. Ou seria também o reencontro com a raiz? O belo está tão perto, ao alcance da vista, basta sair de casa. 

         Bueno de Andrada é uma pequena vila, três ou quatro ruas, silenciosa, limpa. Uma igreja resplandecente, verde, o sino dourado polido. Criança, eu vinha até aqui uma vez por mês para ajudar missa. Havia um pessoal que tomava conta da igreja, mãe e filha, a filha era belíssima. Esqueci o nome. Onde estará? Quem era? Ainda mora em uma dessas casas? Debaixo de uma árvore, quase defronte da estação ferroviária restaurada e transformada em subprefeitura, uma árvore copada. A Ferroban, há dias, quase destruiu parte da estação, um patrimônio. Vai consertar? Na manhã de domingo, um grupo de homens joga truco. Um e outro carro passa em direção a Silvânia. Dali para a frente a estrada é de terra. Enlameada pelas chuvas, os motoristas cuidam para não sair do trilho, preocupados com o "facão" que pode comer o veículo por baixo. Brasil que ainda existe. Bucólico, calmo, o relógio inexistente. 

Brasil que pensávamos estar perdido e está ali, preservado. Uma venda. Bar e Mercearia do Freitas. Solitária. Homens tomando cerveja na manhã de domingo. O garoto compra uma garrafa de pinga: "Marca aí pro pai." Uma senhora anota num pedaço de papel cheio de outras contas. Nem é caderneta. É papel de pão. Confiança dos dois, do freguês e do dono. Brasil que pensávamos desaparecido. Há poesia, não nostalgia. 

         Numa estufa, coxinhas douradas. Nunca tive medo de comida de bar. Claro, nunca ousei experimentar ovo empanado ou asas de frango gordurosas. A coxinha me atraía. "Quem faz?" A senhora respondeu, orgulhosa: "Eu." Pedi uma, era saborosa, massa de batata, crocante, recheio generoso, frango desfiado em quantidade, bem temperado. Letícia, minha sobrinha, comeu duas, considerou almoçada. Cervejas eram abertas, desapareciam nas gargantas. Manhã quente. Pedimos uma cerveja branca e uma preta. Geladas, perfeitas. Ah, não tinha Niger, nossa Guinness. Não sei o que acontece com a distribuição dessa cerveja. Difícil de encontrar. Raridade. Uma tarde, fui com o escritor Deonísio da Silva a Ribeirão Preto ver AFE x Botafogo. Foi ali que ele descobriu a Niger, ficou fã, mas reclama igual: "Nunca tem em São Carlos." 
          Em torno de nós, a mercearia do Freitas, pequena, limpa, nenhum resquício de pó, chão de vermelhão. Nossas cozinhas na infância eram de vermelhão. Foi coisa de pobre, hoje é tendência de decoração. Está nas revistas chiques, na Casa Vogue. No Freitas, há cadernos escolares, panelas, tênis, bebidas, de tudo um pouco. Minimercado. Uma venda daquelas antigas, centro de abastecimento, ponto de encontro. Brasil que ainda existe, se conserva. Atualizado e, felizmente, antigo. Meu tio José, com 75 anos, ex-ferroviário, lembra-se que, quando chefe-substituto de estação em Bueno, ia comer no Freitas. Portanto, a vendinha é tradição. E como jornalismo hoje é serviço, dica, dou a minha. Na manhã de domingo, fuja para Bueno de Andrada, peça todas as coxinhas da estufa, abra cervejas, perfeitamente geladas, sente-se debaixo da árvore, deixe o tempo passar, sem tevê, sem o horrendo Gugu, sem a Xuxa insípida, sem o futebol lixo. Já pensaram em não fazer nada, nada mesmo? Ah, bom para gente estressada. Ou, como diz aquela parente, espressada. Mistura de estresse e pressa. Ela tem razão. 

Texto de autoria de Ignácio de Loyola Brandão, 
publicado em sua coluna do Caderno 2 do Estadão, 
em 23 de março de 2001.

O autor gostou tanto das coxinhas que em 2010 voltou a citá-las em uma outra crônica:

Um comentário:

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