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25 de fevereiro de 2017

A arte de Viajar - Rubem Alves

Piedras Blancas - Bariloche
Bariloche para encantar os olhos
          (...)  
            Toda viagem inclui duas partes. Primeiro, a escolha do lugar para onde se vai. Essa escolha, quem faz é o coração. Segundo, o preparo da viagem. Esse preparo quem faz é a razão. Por isso, disse Fernando Pessoa: “Navegar é preciso; viver não é preciso.” 


A navegação se faz com barcos, velas, bússolas, mapas, dinheiro, malas, roupas, passagens, hotéis, carros: tudo isso se equaciona racionalmente, de forma precisa. Mas a vida, a escolha do destino – que coisa mais imprecisa… Não há razão que nos diga o que escolher: grandes cidades iluminadas, aldeolas perdidas nas montanhas, desertos, pirâmides, fiordes, montanhas geladas, rios, florestas, parques de diversão, shoppings, lugares sagrados, monumentos, restaurantes, museus: as possibilidades parecem não ter fim…
     Assim, fomos viajar. O coração escolheu: atravessar a cordilheira dos Andes, ao sul do Chile, entre lagos e florestas. A razão fez os preparativos: separou o dinheiro, comprou as passagens, tirou as malas dos armários, escolheu as roupas. Acho que nunca tive experiência de beleza maior: os lagos se sucediam, verdes, azuis, entre altíssimos vulcões cobertos de neve. Dos barcos para as “jardineiras”, montanha acima, estradas estreitas, serpenteando, árvores altíssimas, lembrei-me do relato de Neruda no seu livro Confesso que vivi – ele fez caminho parecido em lombo de cavalo, vagarosamente, o poeta fugindo dos fuzis (triste destino dos poetas!). Até que, ao final da travessia (“travessia”, essa palavra que Guimarães Rosa tanto amava!) chegamos em Bariloche, outra exuberância de cores, lagos, florestas, montanhas, cheiros de pinheiro, o vento frio no rosto, os cenários que se perdiam no horizonte. Era prazer? Era. Mas era mais que prazer. Era alegria. A diferença? O prazer só existe no momento. A alegria é aquilo que existe só pela lembrança. O prazer é único, não se repete. Aquele que foi, já foi. Outro será outro. Mas a alegria se repete sempre. Basta lembrar.
          Andando pelas ruas de Bariloche fiquei conhecendo um casal de brasileiros. Estavam lá com os seus filhos. Só fui reencontrá-los mais tarde, em Buenos Aires, numa daquelas ruas onde os turistas vão fazer compras. Sorrimos e nos cumprimentamos. E ele se apressou a falar: "Finalmente estamos longe dos Andes e de Bariloche. Montanhas, vulcões, lagos, matas! Nada para fazer! Só ver! Nós estávamos ficando doidos! Felizmente estamos aqui. Aqui há vídeo-games. Nossos filhos estão felizes…" Ele falava como se fosse óbvio, como se eu estivesse sentindo o mesmo que ele, como se nós fôssemos iguais. Senti as palavras dele como uma agressão. Ele dizia que o que eu achava maravilhoso era horrível e o que eu achava horrível era maravilhoso. Primeiro, foi o choque, estupefação pura. Depois, indignação. Finalmente, ira. “O senhor escolheu a viagem errada”, eu lhe disse secamente. “Deveria ter ido para Las Vegas!” E nos separamos.
    (Uma mulher me enviou um e-mail pedindo que eu desenvolvesse uma filosofia de tolerância: conviver numa boa com todas as opções culturais, estéticas, éticas. Não posso. Quem gostar de música sertaneja e os seus miasmas, que goste. Tem direito. Mas não há mágica que me faça dizer que música sertaneja é equivalente a Beethoven. Quem quiser gostar dos livros do doutor Lair Ribeiro, que goste. Mas não há nada que me faça sequer comparar o que ele escreve com Bachelard. Chamem-me de aristocrata, se quiserem. Não ligo. Há um ponto em que a tolerância significa indiferença. Não tenho tolerância alguma para com uma pessoa que prefere vídeo-games aos rios, montanhas e florestas. Questão visceral. Considero-a minha inimiga. Não quero conversar com ela. Quem tolera tudo é porque não se importa com nada).
     Eles prepararam a primeira parte da viagem direitinho: consultaram folhetos de turismo, trocaram os dólares, puseram as roupas nas malas, as passagens no bolso, câmera fotográfica à tiracolo. Mas os olhos que eles usavam, embora fossem perfeitos (nenhum deles usava óculos), não sabiam brincar com a natureza. Não haviam sido educados para isso. Tinham olhos de visão perfeita e eram cegos. Analfabetos no olhar.
          Bem disse Alberto Caeiro que “Não basta abrir a janela/ para ver os campos e o rio. / Não é bastante não ser cego / Para ver as árvores e as flores…” De que me vale preparar a viagem com precisão se, ao chegar lá, eu só vejo o banal?
        Por isso que Nietzsche dizia que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. Quem sabe ver está sempre viajando – mesmo que não saia de sua casa. Mas quem não sabe ver não viaja mesmo que vá para a China.
    Suspeito que nossas escolas ensinem com muita precisão a ciência de comprar as passagens e arrumar as malas. Mas tenho sérias dúvidas de que elas ensinem os alunos a ver com outros olhos.
logo mala

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