Um pouco mais do Palácio Quitandinha

ESCRITO POR: quarta-feira, novembro 28, 2018 , ,

Palácio Quitandinha - Petrópolis

          Fomos conhecer o Palácio Quitandinha, em Petrópolis, e nos encantar por ele, assim como aconteceu com Zélia Gattai e Jorge Amado na década de 1950. A autora contou em seu livro de memórias Chão de Meninos (1992) como conheceram e adquiriram o apartamento no Quitandinha com detalhes que resgatam a história do auge e decadência do hotel-cassino após a proibição do jogo no Brasil, assim como contamos aqui. Leia os trechos do livro:

Capa do livro

Apartamento no Hotel Quitandinha

      Quem nos deu a pista e nos entusiasmou a comprar um apartamento no Hotel Quitandinha foi nossa amiga Glorinha, viúva do escritor Cordeiro de Andrade, amigo de juventude de Jorge. Pessoa de grande energia, risada franca e contagiante, Glorinha possuía um agudo tino comercial. Estava sempre às voltas com negócios, comprava e vendia, sabia onde pisava. Pois foi Glorinha quem descobriu os tais apartamentos à venda. Ela mesma comprara um por preço surpreendentemente baixo.
    O Hotel Quitandinha, em Petrópolis, imenso, requintado, majestoso, preparado para hospedar marajás e magnatas, construído para ser o maior cassino da América do Sul, após a proibição do jogo no Brasil, ficara na pior, um elefante branco. Quem poderia manter aquele hotel gigantesco, sem a presença do jogo? Depois de muito tempo às moscas, os proprietários do hotel resolveram vender pequena parte de seus apartamentos a particulares.
    Havia ainda uma à venda e Glorinha, sabendo que Jorge procurava um recanto tranquilo para trabalhar, tratou de nos avisar correndo: "Lugar mais silencioso do que o Quitandinha não existe. Aquilo é um verdadeiro túmulo! Para Jorge trabalhar não há coisa melhor. Vão por mim! Não ganho um tostão nesse negócio!".
        Com Glorinha subimos a serra num domingo para ver a coisa de perto. Não havia dúvida, o apartamento era bonito, construção de primeira. Um dormitório apenas, pequeno porém com todo o conforto, mobília da melhor qualidade, um terraço fechado fazendo parte do apartamento e outro enorme, com cantoneiras de flores, à disposição dos proprietários daquela ala, tudo isso, inacreditável!, por uma bagatela, quinze mil cruzeiros, se não me falha a memória, talvez menos. Nessa mesma tarde de domingo, resolvemos comprá-lo.

Lua de mel no Quintandinha

      João Gilberto, o papa da Bossa Nova, estava noivo, trouxera Astrud, a noiva, para a conhecermos e dela ficamos igualmente amigos. (...)
        Eu quis saber onde seria a lua de mel, e eles ainda não sabiam. Sugerimos que fossem para o nosso apartamento em Quitandinha, lá teriam paz e privacidade. Nos vários finais de semana passados lá na serra, constatáramos que os raros hóspedes que perambulavam pelo hotel eram, na maioria, casais em lua de mel.
Astrud e João ficaram de pensar e até decidirem João nos deu vários telefonemas querendo saber detalhes sobre o apartamento e seu funcionamento. Chamava sempre a mim, não tinha coragem de incomodar Jorge com tais perguntas. Por fim, decidiram aceitar nosso convite, passariam a lua de mel em Quitandinha.
(...)

Glauber Rocha

      Nosso apartamento no Quitandinha serviu à lua de mel de vários casais amigos nossos. Astrud e João Gilberto iniciaram a série. Seguiu-se a lua de mel de Helena Ignez e Glauber Rocha. A lua de mel do cineasta e da atriz, apenas começou lá na serra. Glauber adoeceu e o casal voltou em seguida para o Rio. Continuaram nossos hóspedes no apartamento da Rodolfo Dantas e lá permaneceram até o restabelecimento de Glauber, ocupando nosso quarto e nossa cama, pois na ocasião Jorge se encontrava em viagem.
      Ainda dois casais ocuparam nosso apartamento no Quitandinha, em sua lua de mel: Sônia e Gilbert Chaves, arquiteto baiano que construiu nossa casa na Bahia, e o jornalista Mauritônio Meira e Ângela, que viriam a ser compadres de Jorge. (...)
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