Museu mais doce do mundo

ESCRITO POR: quinta-feira, agosto 01, 2019 , , , , ,

       Como uma atração criada para gerar likes no Instagram, vai sobreviver sem os likes do Instagram? Não sei! 
Museu mais doce do mundo - SP

         O Museu mais doce do mundo foi criado para driblar as proibições dos museus 'comuns' para fotografias. Afinal qual o interesse de um instagrammer em visitar um lugar que ele não pode mostrar a seus seguidores? Nesse museu é possível fotografar à vontade, mas no lugar de objetos históricos ou obras de arte há guloseimas gigantes principalmente em tons de rosa, distribuídos em 15 salas de doces cenários que possibilitam postagens de sucesso no Instagram. O nome oficial da exposição é "Diga sim à felicidade", porém, eu disse 'não' a pagar R$60 para ficar uma hora entre picolés, marshmallows e brigadeiros gigantes do espaço instagramável. Para entender melhor do que se trata acesse a hashtag #museumaisdocedomundo no Instagram e veja as centenas de postagens dos visitantes.

Museu mais doce do mundo
         Eu achei que pudesse estar sendo meio ranzinza (talvez sovina?) por não me entregar à doce tentação do museu, afinal passei em frente passeando pelo Jardim América em um domingo que tinha no roteiro o MIS (Museu da Imagem e do Som), o MuBE com sua feirinha de antiguidades, a casa de Ema Klabin com suas obras de arte e a lindíssima igreja de Nossa Senhora do Brasil, todas as atrações na mesma região e quase todas gratuitas. A meu ver, um museu desse tipo tem a relevância cultural de um panfleto de supermercado: cheio de imagens, apenas com interesse comercial. Mas essa é só a 'minha' opinião, o cartaz divulgando os horários com ingressos esgotados é a prova de que despertou o interesse em muita gente.
Museu mais doce do mundo
        O que dizer sobre um museu que nem visitei? Realmente seria incoerente, por isso, vou emprestar as palavras de Tati Bernardi, que escreveu suas impressões sobre o museu para a Folha de São Paulo: 

O museu mais deprimente do mundo


         Um inferno caro e com cheiro de peido doce (de quem acabou de comer 67 Sonhos de Valsa e está entre o frenesi e a morte). O Museu Mais Doce do Mundo, se avaliado em termos de custo-benefício, poderia se chamar o Museu Mais Salgado do Mundo. Ou o Mais Enganação, se você pensar que usaram a palavra “museu” como desculpa para fazer propaganda de marcas de chocolate e refrigerante. Ou o Mais Deprimente, se você prestar atenção na fila de gente querendo tirar foto com a palavra “felicidade” ao fundo.       Se isso não é a simbologia máxima de que estamos completamente na merda, eu não sei de mais nada. 

        Mas perder dinheiro é pouco perto do que você sente esvair do peito ao adentrar cada sala lambuzada de frases vazias e guloseimas de plástico: é a fé na humanidade que, talvez, nunca mais será refeita. A Amazônia morre, os parques morrem, as mesinhas nas calçadas são proibidas, o cinema morre, a água que acaricia as madeixas da minha filha na banheira tem mais de 30 agrotóxicos. O Nordeste, segundo nosso presidente, não existe. A fome, o desmatamento e o racismo não existem. Não vamos nos enganar: o presente é terrível e o futuro nem teremos. O que nos resta agora é fazer poses idiotas em donuts de plástico achando que estamos resgatando algo mágico da infância.
       Já na entrada, pouca informação sobre a segurança das crianças e um blá-blá-blá sobre a importância de fazer muitas fotos e usar as hashtags do “museu”. É uma atração para você “se marcar” e não para estar. Para você postar feelings em vez de sentir. Ou melhor, eu senti uma leve vontade de falecer. 
        Monitores treinados para parecer recém-saídos de um tonel de Prozac gritam “marshmallow!” antes de as crianças entrarem em uma decepcionante piscina de marshmallows. “Aqui é o dinheiro que manda!”, um pai reclama ao ver seu filho, em prantos, sendo expulso do brinquedo depois de segundos. Foi, disparado, o segundo pior momento que tive neste 2019. O primeiro, é claro, se refere à posse do nosso presidente. 
       Na mistura das duas desgraças, fica a sensação de que tudo é tão deprimente que aqueles adultos deslizando em caldas doces de plástico, provavelmente seus eleitores, saíram do mundo invertido do “Stranger Things”. 
      Eu pergunto a este jornal: vocês, que indicaram tal passeio como “um dos melhores” para as férias, de fato estiveram lá? Mães histéricas, aflitas para capturar “o momento mágico” de seus filhos entediados em bancos de quindins, várias vezes quase derrubaram a minha filha. Funcionárias vestidas de “fada do bombom vintage” tentavam convencer uma criança bem pequena de que tal guloseima era sim uma delícia. E a criança respondia: “Não, é muito doce”. E elas insistiam: “Vai, experimenta”. Atenção pediatras e nutricionistas! 
       Seja feliz! Divirta-se! Marshmallow! Brigadeiro! Era o que todos os funcionários desejavam, sem parar, a uma massa cabisbaixa, a procurar o melhor filtro para dentes falsamente brancos e escancarados. É o match perfeito (e perverso) entre um marketing medíocre e a nossa mediocridade marqueteira. Um embate escandaloso, uma dança pegajosa, a carência dando as mãos à ambição para um salto ornamental onde apenas os mais fortes têm paraquedas. E, nessa lambança, quem morre é quem tem alguma noção do ridículo. 
     Saí em coma espiritual, arrasada, subjugada pela superficialidade soberba de nossos tempos, esquartejada pelas pequenas vidas que só se realizam em frames congelados. Minha filha odiou tanto que se distraiu com um pote de melão cortadinho que levei escondido na bolsa.

         Ler o texto de Tati Bernardi foi um balsamo para mim. Não, eu não estou louca, realmente é superficialidade demais... porém, caso queira conferir se não estamos exagerando, seguem as informações.

Serviço

Até 18 de agosto em São Paulo
R. Colômbia 157, Jardim América
Das 11h às 21h, de terça-feira a domingo
Preço R$60 e R$30 (meia entrada)
Menores de 14 anos devem estar acompanhados dos pais ou responsáveis.

Após 15/09/2019 no Rio de Janeiro.

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1 comentários

  1. Oi Silmara!

    Realmente esse museu (?) é um sinal dos tempos em que estamos, em que as pessoas visitam os lugares só para aparecerem e tirar fotos, sem quererem realmente desfrutar o momento.

    Pagar R$60 para isso? De jeito algum! Como você falou, prefiro ir ao MIS, muito mais interessante.

    Beijos!

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